Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um
cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não
sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque
eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis
o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a
transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu
modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não
sei ceder. É porque no fundo eu queria amar o que eu amaria - e não o que
é. É também porque eu me ofendo a toa. É porque talvez eu precise que me
digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito
possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o
rato para mim. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi
os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor
inocente. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um
pouco de tudo. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi
amar o meu contrário (…). Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo
que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi
me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava
querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.
(Clarice Lispector - do Livro:
Felicidade Clandestina).
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quarta-feira, 2 de abril de 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
Eu. Eu mesma. E você?
por Sarah Camilo
Quando um rótulo se
atrever a chegar perto de você, despreze-o. É perigoso.
Não,
não sou feito você. Pobre medíocre e tolo. Eu sou assim mesmo. Sou à flor da
pele. E para me aturar é preciso ser também. Entendeu?
De
todos, os que conheci, você foi o mais importante, mas você fez questão de
estragar tudo. Todo o sentimento que foi surgindo em mim foi embora, não sei
pra onde, mas foi. Vá, por favor, vá!
Não
quero mais sofrer por amor. Tenho contas a pagar. Você se responsabiliza? É faculdade,
curso extra, roupas, calçados, etc. etc. etc...
Por
que tem que ser assim? Por que você não pode ficar comigo, seu idiota? Imbecil!
Eu te amo. Não consigo amar outro a não ser você. Você, maldito, está em tudo e
em todos. Mesmo que eu transasse com outro estaria gemendo por você. Só por você.
Dói. Dói não o pau dele enfiando na minha buceta, mas dói não tê-lo perto de
mim, nenhum dia sequer.
Morro
de saudade, mas você nem sabe disso porque não falo. Não falo absolutamente
nada. Nem pra mim mesma.
Não
gosto de submissão e de obedecer a regras. É totalmente fora do meu estilo de
personalidade. Entendeu? Se não entendeu, eu entendo, vai demorar um pouco,
pois sou assim, desse jeito. Totalmente transparente. Desculpe meu amigo, minha
amiga, mas sou assim.
Há
quem diga que sou estúpida, mas discordo. Sou eu mesma. Não sou rótulo. Como diz
minha amiga e querida Clarice Lispector: para viver é necessário competência. Eu
a tenho. Quem não me compreende é que não a tem. E o que eu tenho a ver com
isso? Não tenho culpa, ora essa.
domingo, 16 de março de 2014
Mais uma semana vai embora, e para fechar as publicações comemorando o Dia da Poesia, deixo vocês com a companhia do texto “Ser amigo”, Paulo Goulart, que nos deixou. Porém, nos deu de presente o significado simples do que é ser amigo de verdade. Até a próxima!
Ser Amigo
Paulo
Goulart
É o que
faz sem perguntar.
É o que acolhe,
participa e ajuda.
É o que ouve, aconselha e respeita.
É o que alerta, aplaude e critica.
É o que partilha a alegria e a dor.
É o que desconstrói construindo.
É o que discorda, não do conteúdo, mas da forma.
É ser fraterno, sem ser irmão.
É fazer mais do que falar.
É não ter dia, nem hora.
É ser o outro, sem deixar de ser você.
É não estar só.
É sonhar.
É saber esperar!
“Para o amigo, tudo! Para os outros, justiça!
É o que ouve, aconselha e respeita.
É o que alerta, aplaude e critica.
É o que partilha a alegria e a dor.
É o que desconstrói construindo.
É o que discorda, não do conteúdo, mas da forma.
É ser fraterno, sem ser irmão.
É fazer mais do que falar.
É não ter dia, nem hora.
É ser o outro, sem deixar de ser você.
É não estar só.
É sonhar.
É saber esperar!
“Para o amigo, tudo! Para os outros, justiça!
sábado, 15 de março de 2014
Sabemos que Minas Gerais é mãe dos nossos grandes poetas. Fernanda Montenegro, artista de primeira, diz que quando vai a Minas sente que está indo “para dentro do Brasil”. E o texto de hoje é de uma mineira que acabei de conhecer (através de textos). Quem nos apresenta é Marina Medici Subtil: Marina é doutoranda em psicologia social e fisioterapeuta. Apaixonada pelo encanto do movimento feito de palavras, gestos e corpos. Estuda a consciência do corpo associada ao encanto e à sincronia dessincronizada do fazer humano de cada dia.
Maria José de Queiroz
Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços. Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo. Não estou aqui pra que gostem de mim. Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho. E pra seduzir somente o que me acrescenta. Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e
minha paz. Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que
me deixa exausta. Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo. Sei
chorar toda encolhida abraçando as pernas. Por isso, não me venha com meios-termos,
com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras,
tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,
mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis, em alegrias
explosivas, em olhares faiscantes, em sorrisos com os olhos, em abraços que
trazem pra vida da gente. Acredito em coisas sinceramente compartilhadas. Em
gente que fala tocando no outro, de alguma forma, no toque mesmo, na voz, ou no
conteúdo. Eu acredito em profundidades. E tenho medo de altura, mas não evito
meus abismos. São eles que me dão a dimensão do que sou.
Maria José de Queiroz (Belo Horizonte, 29 de maio de 1934) é uma escritora brasileira. Tem uma longa Carreira los Importantes Universidades na Europa e nos ESTADOS UNIDOS: Sorbonne, Lille, Bordeaux, Aix-en-Provence, Bonn, Colônia, Indiana, Harvard e Berkeley.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Hoje, 14 de março, Dia Nacional da Poesia, tenho o prazer em publicar a poesia de uns dos maiores poetas que o Brasil tivera. Carlos Drummond de Andrade nos mostra que poesia não é só declaração de amor, mas de medo, tristeza e realidade. Boa leitura!
Congresso
Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas
quinta-feira, 13 de março de 2014
É com grande alegria que recebo a colaboração de um dos nomes promissores da Literatura Brasileira: Maria Gabriela. Ela nos presenteia com a poesia de Viviane Mosé, assim como nós, capixaba. Maria Gabriela é estudante de Letras inglês, escreve no blog A menina com coração de pássaro (gabipardal.blogspot.com). Vive de poesia e entende que não foi uma escolha feita por ela. Concorda com Leminski quando ele diz que o poeta é poeta porque nasceu com defeito genético, diferente e torto. Ainda assim prefere que a vida seja lida e vivida com vários eu-líricos do que sem eles.
Sem
título
Viviane
Mosé
Eu não posso mais negar
Uma estranha luz um dia
Entrou por meus olhos e boca
Por meu sexo
Por meus poros
Eu não posso mais estancar
Esta força que aflora
Do meio de minha barriga
Em gestos desconexos vou vivendo
Sob os tapetes da sala
Atrás dos móveis, entre as louças
Sempre está luz a me deixar comovida
Eu não posso mais cobrir
Com cimento
Esta força que insiste em jorrar
Por meus olhos
Perplexos
Eu tenho medo da morte
Eu tenho paixão pela vida
A vida é o que vibra Em minha voz.
quarta-feira, 12 de março de 2014
E nada melhor para celebrar a poesia do que a própria manifestação da mesma. Com suas leituras, experimentações e vivências. A sua ação, o seu movimento constante de interpretação e significações pela interface da leitura por várias subjetividades. E fico por aqui, com a apresentação do poema: Uma gota, por Jéssyca Fraga.
Uma
gota
Ali está... Ínfima, cristalina...
Desprendida pelo orvalhar, ali está.
Acolhe-se sutilmente no verde esmeralda da folhagem...
Em uma folha... Está.
A folha faz-se “César” para com a gota.
Que sem apresentar por menores, aceitas a “honraria”.
Aceitas sendo o que é.
Uma pequena transcendida pela grandeza.
Nela há mares, oceanos, cachoeiras...
Uma imensidão sublimada na matéria e aparência do
pequeno.
Basta olhar...
Sentir...
...Inspirar...
A essência,
Que por vezes, é refugada
por olhos rasos e oniscientes.
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